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Nos meados do ano de 1977, a Patrulha do Espaço foi formada com o intuito de
ser uma banda de rock and roll sob a capitania
de Arnaldo Baptista, que voltava a ativa após anos de amargura e
incompreensão. Éramos eu na bateria, o John
Flavin na guitarra e Osvaldo Gennari
o "Cokinho" no
baixo. Por esta banda largamos tudo o que estávamos fazendo musicalmente na época
e nos entregamos de corpo e alma ao grupo. Ensaiamos e arranjamos as músicas do
Arnaldo durante uns 30 ou 40 dias seguidos e a banda soava como se tivesse anos
de estrada, era maravilhoso.
Logo as pressões comerciais e os abutres jogaram
sua sombra sobre nós e o que era para ser uma unidade só se transformou
em um engendro chamado Arnaldo e a Patrulha do Espaço. O importante é que começou
um processo de distanciamento que seria irreversível entre o Arnaldo e A
Patrulha, que culminaria com a saída de John Flavin poucos dias antes da estréia
da banda. Dessa formação na época ficaram os altos e baixos astrais e um
trabalho maravilhoso de estúdio que só viria a ser conhecido em parte mais de
uma década depois.
Para uma melhor localização no tempo e no espaço e adotando o critério que o
começo profissional de um artista se dá quando ele pisa num palco, a estréia
da banda foi no dia 17 de setembro de 1977 no Ginásio do Ibirapuera em São
Paulo ante 8.000 pessoas e com o Eduardo Chermont, o Dudu,
na guitarra. E desse jeito, entre tapas e beijos, vitórias e derrotas,
ficamos com o Arnaldo até o dia 28 de maio de 1978, quando fizemos nosso último
concerto no Anfiteatro Cacilda Becker em São Bernardo - SP. Foram nove meses, o
tempo de uma gestação.
No primeiro momento, quando nos separamos do Arnaldo,
eu o Dudu e o Cokinho ficamos em um
estado que era um misto de raiva, depressão e esperança, porque não nos
separamos numa boa e tínhamos compromissos profissionais e contratuais para
cumprir dali a dez dias. O problema maior era o repertório, já que com exceção
de duas músicas, o resto do trabalho era do Arnaldo. O vocal, a princípio, o
Dudu iria segurar. Então, devido ao escasso tempo, começamos a cavocar o baú
de nossas outras bandas antes da Patrulha e assim garimpamos, umas músicas de
quando gravei com o Made in Brazil e uma banda Argentina em que eu havia tocado
e gravado pouco antes de abordar a nave da Patrulha, que era o Aeroblus. O
Cokinho resgatou alguns temas de sua ex-banda Neblina, e o Dudu tirou da manga
algumas composições. Nesses dias frenéticos, ensaiávamos num depósito de móveis
na famosa rua Augusta em Sampa, em que dispúnhamos de um pequeno auditório com
uns 30 lugares e um palco onde cabía os três e algum equipamento. Fora do
palco no dito auditório, ficava o
resto do equipamento, nosso fiel roadie Ronaldo, um pequeno gravador mono,
daqueles com microfone embutido que apitava quando não estava gravando. E no
meio desta balbúrdia de fios, suor e cadeiras havia ainda espaço para alguns
amigos, entre eles um assíduo freqüentador dos noturnos ensaios, Percy Weiss,
ex-vocal do Made in Brazil e que na época estava sendo cortejado para entrar na
banda do Netinho, a Casa das Máquinas. Durante aqueles dez dias, o Percy foi a
oito ensaios e naturalmente, ia colocando uma voz aqui, dando um palpite ali ou
uma harmonia acolá. Quando nos demos conta o cara tava lá em cima do palquinho
com a gente e com ele vieram ainda mais um monte de equipamento e sua entourage
particular. Ali dentro era melhor que o útero materno. Tínhamos nossas leis,
nossa música e o futuro pela frente, não nos importando com os altíssimos
decibéis que invadiam a não menos frenética rua Augusta, com seus playboys,
putas, desocupados e dezenas de bares. Atrás das pesadas portas do nosso mocó
não havia lugar para o medo do sistema repressivo e opressivo que nos
circundava e se fazia mais visível através das famigeradas viaturas cinzas da
Rota que insistiam em passar bem devagar diante do nosso santuário. Ali só
havia lugar para um sonho, o de fazer rock and roll na terra do samba, dos
milicos e da discoteque. Eram tempos muito duros e difíceis, tudo contra e nada
a favor. Verdadeiros anos de chumbo.
Assim
se gestou a Patrulha, e no dia 8 de junho de 1978, Percy, Cokinho, Dudu e eu
pisamos o palco do Ginásio de Esportes de Sorocaba para o primeiro concerto
juntos. Fizemos mais algumas datas com a insegurança natural dos poucos ensaios
e do repertório montado as pressas. Porém, ganhamos confiança no nosso
trabalho que já naquela altura do campeonato não era apenas tocar, mais cuidar
também de todos os aspectos relativos a produção e administração da banda.
Já que mesmo nos tempos iniciais com o Arnaldo, só contamos com uma estrutura
empresarial nos primeiros quatro shows e na gravação do, naquela altura,
esquecido disco. Graças ao empresário da época, que decidiu se dedicar
exclusivamente ao Terço e Mutantes, aprendêramos a andar com nossas próprias
pernas, e pagamos um elevado preço por isso, a nível trabalho e financeiro.
Estávamos sós, e portanto, donos dos acertos e erros.
Estávamos
há um ano ininterrupto na estrada, precisando ensaiar melhor e compor com o
Percy. Ademais dos corações e mentes cansados, o equipamento estava detonado
de tanto monta, desmonta e uso abusivo. A providência fez com que fossemos para
um sitio no interior paulista não longe da metrópole e durante quase
dois meses ensaiamos e compusemos material suficiente para voltar a estrada.
Gravar nem pensar. Rock no final dos anos setenta, era para muitos,
anti-comercial, coisa de cabeludos marginais. Após o boom
roqueiro de 73 a 76 o movimento estava estagnado, perseguido por forças retrógradas
em todas as esferas da sociedade. Fora a mais direta intervenção do braço
armado do sistema civil que é a polícia.
A nova e
flamante formação da Patrulha teve sua estréia oficial em São Paulo, em um
ciclo de concertos no Teatro Treze de Maio, entre agosto e setembro de 1978.
Mais alguns shows no ABC e estávamos de novo afiados para tentar novos
horizontes, sair do casulo, da capital e do estado. Tocávamos para sobreviver
material e espiritualmente e havíamos construído uma boa reputação. Tínhamos
que sair pra estrada, assim resolvemos expandir o trabalho para fora do estado,
já que havíamos conquistado um bom público na capital e tínhamos um reduto
muito grande de fãs no ABC (São Caetano, São Bernardo, Santo André) e na
periferia de São Paulo. Tocávamos para a molecada fudida, os filhos dos operários
e metalúrgicos, os marginais do sistema assim como nós. E éramos adorados por
aquela geração. Por isso não poupávamos esforços para levar nossa música
ao nosso público. Por outro lado, tínhamos que sair do gueto, e não ia ser
pelo rádio ou TV. O único caminho era a estrada. Assim que produzimos nossa
primeira tour para o sul do país, esses conceitos que tínhamos na época, essa
coisa de trabalhar as bases, fazer tournês, auto-empresariar, hoje em dia podem
até ser lugar comum, mas na época era uma coisa bastante revolucionária
e uma carga pesada para uns garotões como nós. Apesar das adversidades fantásticas
encontrávamos força na nossa
unidade. Éramos uma família, nós, os
roadies e os instrumentos eram extensão dos nossos corpos.
A nossa
primeira tour no sul funcionou bastante bem, apesar dos constantes problemas com
o P.A., mais uma vez a providência pôs no nosso caminho um técnico de som que
a cada cidade reconstituía o equipamento para o próximo show. Já ao final da tour o equipamento parecia um frankenstein de
tantos remendos. As caixas do P.A. que vinham da época dos Mutantes e do Made,
estavam literalmente se decompondo. Mais uma heróica etapa cumprida e novos
territórios conquistados, fechamos o ano de 1978 com dois shows ao ar livre
na Concha Acústica do Taquaral em Campinas.
O
desgaste do equipamento foi resolvido retirando-se os falantes das caixas e
jogando as mesmas no lixo. Mas os últimos seis meses de estrada, loucura e rock
and roll estavam causando novas rachaduras na monolítica formação da
Patrulha. Dessa vez as desavenças estavam pintando entre a banda e seu mais
novo membro, Percy.
Nos
meses que se seguiram, tentamos uma nova composição que desse um novo impulso
nas internas da banda. A saída foi a incorporação do Walter Baillot como
segunda guitarra, o Waltão exímio e pesado tocador de Les Paul vinha do Joelho
de Porco e do Cães e Gatos, banda formada pela Rita Lee após a separação do
Tutti-Frutti.
Apesar
de todos os esforços, a separação caminhava inexorável para seu desenlace.
Antes fizemos uma apresentação os cinco, eu o Dudu, Cokinho, Percy e Waltão
em um dos salões de rock da periferia paulista.
A seguir a última apresentação com o Percy e o Waltão no hoje histórico
e lendário concerto do Teatro Pixinguinha, em 16 de abril de 1979. Fechamos
esta fase com broche de ouro, no enorme e totalmente lotado Teatro no coração
da Paulicéia. Nesse show nos despedíamos do Percy e da Gibson S.G do Dudu, que
foi quebrada e imolada aos deuses
do rock naquele palco para delírio dos milhares de fãs. O saldo dessa formação,
por parte do Waltão, foi o enorme aporte tecnológico
que na época ele trouxe para a banda como o sistema sem fio F.M. para guitarra,
o talk-box efeito para guitarra. Tudo isso obra dele, material artesanal feito
por ele e que só iria ser incorporado às bandas muitíssimos anos depois. Fora
a inclusão de uma música do Joelho de Porco no repertório da Patrulha, que se
tornaria um clássico da banda e um hino da nossa geração. O nome do tema -
"Meus 26 Anos". O Percy voltaria pouco tempo depois para o Made, mas
sua amizade e colaboração ficariam com a Patrulha até os dias de hoje. E nós
seguiríamos o que era para ser nossa inclinação natural como banda, um trio
pesado.
Seguindo
nossa vocação natural de trio, Cokinho, Dudu e eu
continuamos na roda viva dos concertos, eventualmente somando algum
convidado como foi a fugaz passagem do lendário guitarrista argentino Pappo nos
concertos de 27 e 28 de abril de 79 no Teatro Santos Dumont em São Caetano,
logo após o concerto do Pixinguinha. Fora que tínhamos a salutar política de
sempre levar bandas para abrirem nossos shows. Novamente estávamos presos de
novo no reduto do ABC paulista, terra de roqueiros, baluarte
e alicerce de grandes bandas paulistas como no futuro seria para o
"Golpe de Estado". O ABC era território da Patrulha, mas queríamos
mais, queríamos um disco, um novo equipamento e novos territórios. Tínhamos
que jogar grande. Podíamos ficar anos ali onde estávamos, mas o Brasil não
era São Paulo. Tínhamos que ser
de novo bandeirantes.
Desta vez não bastaria visitar outros estados. A tour teria que ser nacional e
aproveitando os contatos argentinos, porque não estender a tour para lá. Para
montar a tour, paramos de tocar ao vivo três meses. Nesses noventa dias iríamos
gravar um disco independente, lançar um jornal tablóide de apoio para a tour,
reequipar a banda com um novo P.A., agendar e articular a promoção da mesma.
Para
a gravação, um papo com o André Christovan nos levou ao estúdio de um amigo
dele, recém chegado dos EUA que estava montando seu estúdio de oito canais. É
importante saber que apesar de estarmos falando de 1979, na época haviam pouquíssimos
estúdios operando de forma independente e de preço acessível. Fechamos a
gravação com o Guto. Na época o estúdio se chamava Imaginasom, hoje em dia
se chama Guidon. Restava o problema da prensagem, capa e distribuição, Apesar
de eu já ter nas costas na época dois discos gravados em grandes gravadoras -
o primeiro do Made (RCA) e o Aeroblus (Phillips) na Argentina - não dominávamos
os mecanismos. A grana era curta, pois o operacional de toda a produção, tour+disco+equipa+jornal,
e promoção representavam uma operação financeira gigantesca. Quando buscamos
apoio com alguns empresários, estes chegaram a temer pelas suas vidas e pelas
nossas, pois achavam eles que nós estávamos peitando as grandes gravadoras,
entrando no seu sacrossanto direito de explorar os artistas. Nós nunca havíamos
sequer pensado neste aspecto. Só então nos demos conta de quão ambicioso e
pioneiro eram na realidade nossos planos. Anos depois o Boca Livre iria lançar
um LP independente de grande sucesso e despertar milhares de artistas para este
tipo de caminho alternativo. Mas naquele momento creio que fomos de um
pioneirismo e coragem sem
precedentes.
A
gravação do disco preto da Patrulha, como
ficou conhecido o disco, começou
com nós e o Guto Guidon no estúdio, sem a menor pré-produção
e muito menos um produtor. Não porque não quiséssemos um. Eles
simplesmente não haviam e os poucos que poderiam ter feito algo como o Pena
Schmidt, não estavam ao alcance
dos nossos já combalidos bolsos. Ainda assim, vários amigos foram ao estúdio levar algumas dicas, equipamento, solidariedade e incentivo.
Cabe lembrar o Celso Vecchione do Made, o Norton Lagoa do Burmah e é
claro, o Percy. Não podemos esquecer que neste momento éramos um trio, iríamos
gravar tudo e o Dudu cantar. E assim foi até o momento de colocar as vozes. É
sabido que raramente se coloca voz em um disco pela manhã, mas nós não sabíamos
disso, e no nosso apertado orçamento, gravávamos quando dava. Assim que íamos
colocar as vozes todas em uma só sessão de gravação, as sessões nos estúdios
em geral são de seis horas e nós tínhamos marcado 30 horas para gravar um
L.P. Uma temeridade e algo impensável em termos de uma grande gravadora.
Chegamos
ao estúdio cedíssimo. As oito hðWYjš½¯ì⿈š•qyk6¿ðÆ_>-i—7v§>‘¨ÚéËà_Üj…µýµÄ76Ñ[›‹im¥Žxãhœ